Atados convida: Mauro Ventura para fazer uma série de matérias sobre organizações e pessoas inspiradoras do setor social. Leia abaixo o primeiro texto da série, sobre Verônica Machado e a Mensageiros da Esperança, em SP.


Meses atrás, Verônica Machado pensou até em mandar embora alguns funcionários. Afinal, a pandemia da Covid-19 forçou o fechamento de seu bufê escola, que bancava 60% de seus custos. Mas, ao contrário do que previa, ela não só conseguiu evitar demissões como ainda contratou novos profissionais, em agosto.

Tive que chamar 12 cozinheiras, além de 22 ajudantes de cozinha e cinco outros colaboradores – festeja ela, ao telefone, direto de sua ONG, a Mensageiros da Esperança. 

Verônica estava ali em pleno domingo para coordenar a logística da preparação de 800 marmitas que seriam distribuídas no mesmo dia para moradores de comunidades da capital paulista, em especial da Brasilândia, na Zona Norte, um dos distritos mais violentos de São Paulo. É o Cozinhando pela Vida, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, projeto da qual a ONG faz parte. De 24 de agosto até agora já foram beneficiadas mais de 9.500 pessoas. 


Acordo todo dia às 5h, chego aqui às 6h20 e fico até as sete da noite. Mas hoje tive uma colher de chá e cheguei às 11h – diz, com bom humor, antes de explicar a razão: – É que tenho trabalhado direto há 15 dias e hoje meus colegas me deram uma folga. 

Mas ela não reclama de trabalhar tanto e de estar de plantão no fim de semana. Sabe a importância da ONG que fundou há 22 anos.

O Cozinhando pela Vida, por exemplo, além de alimentar centenas de pessoas todo dia tem dado oportunidade de emprego a tantas outras, como é o caso de Isabel Cristina da Silva, de 48 anos.

Ela havia sido demitida de uma fábrica de camisetas promocionais dois meses após ser contratada. O filho, de 29 anos, que trabalhava em outra firma como ajudante geral, também foi dispensado pouco depois. 

– Chorei muito, foi desesperador – lembra Isabel, que mora ainda com a mãe, de 80 anos. – Começaram os problemas de saúde, as dores de cabeça e de estômago, a insônia, a ansiedade. Entrei em pânico. 

O sufoco diminuiu quando começou a receber cestas básicas da ONG. E a situação melhorou ainda mais quando, em meados de agosto, foi contratada como cozinheira do projeto, que vai até dia 22 de outubro.

– Verônica me estendeu a mão e me acolheu quando eu mais precisava. Foi um divisor de águas na minha vida.

As cestas que Isabel recebe começaram a ser enviadas pelo Atados, por algumas pessoas, pelo Instituto Coca-Cola e por outras empresas engajadas no esforço de minimizar os impactos da pandemia. Aliás, desde o começo da doença o trabalho de Verônica aumentou.

– O poder público demorou demais a agir. Muita gente entrou em depressão, perdeu o emprego, passou fome, ficou sem chão. Estou atendendo gente que perdeu o mínimo que tinha, faliu seu pequeno negócio, está sem renda nenhuma. Gente que nunca precisou da instituição e não era cadastrada em nenhum programa de auxílio – lamenta ela, que também foi infectada pelo coronavírus. 

Aliviada pela chegada das doações e disposta a ampliar o alcance do trabalho, Verônica mapeou as necessidades de Brasilândia e criou a Rede do Bem, reunindo 23 instituições que atuam no distrito.

Foram estabelecidos três eixos de atuação, além de atendimento psicológico para lideranças comunitárias e alunos da ONG. O primeiro deles foi a chamada segurança alimentar, com doação de cestas básicas e de kits de guloseimas para crianças. Outra ação foi a conscientização, com carros de som e cartazes. E o terceiro ponto foi a higienização, com distribuição de máscaras e álcool gel. 

– A pandemia ampliou todos os problemas que já tínhamos, de saúde, de falta de segurança, de violência doméstica, de saneamento. E mostrou ao mundo o que era a realidade da Brasilândia – diz ela, sobre o distrito que é um dos recordistas de mortes por Covid-19 em São Paulo. 

Mas, como é natural, as doações têm diminuído com o tempo. Verônica se antecipou ao problema e viu que era preciso compartilhar sua experiência e ajudar outras ONGs a se estruturar. Ela criou em agosto uma aceleradora, a TransformAção Periférica, para capacitar líderes comunitários locais. Eles têm aprendido desde a captar recursos e dominar ferramentas de marketing até elaborar indicadores mensais e escrever projetos.

– Hoje atendo 18 ONGs, mas o objetivo é chegar a 25 lideranças todo ano. 

Verônica nasceu na Freguesia do Ó e mora há 25 de seus 50 anos na Brasilândia. Foi lá que criou a ONG, que, em 2014, se transferiu para a Lapa de Baixo. Mas 80% do público atendido vive na comunidade de origem da instituição. 

A Mensageiros da Esperança teve origem numa tragédia pessoal:

a morte do irmão caçula de Verônica, Tiago, de 14 anos, em 1998. O jovem jogava bola no colégio quando houve uma disputa banal com um colega de pelada, da mesma idade. 

– O outro rapaz saiu de campo dizendo que ia matar meu irmão, mas ninguém acreditou.

Só que ele foi para casa, na Favela do Pó, pegou uma arma e, 15 minutos depois, deu um tiro que acertou a artéria aorta de Tiago. Ele foi socorrido ainda vivo por um taxista e levado a um hospital, mas não resistiu. A polícia prendeu o atirador em flagrante e Verônica – a primeira da família a aparecer na escola – teve que ir à delegacia. Por coincidência, acabou chegando junto com o rapaz que matou seu irmão. 

– Perguntei a ele: “Por quê? Você acabou com a vida da minha família e da sua.” Aquele menino franzino estava apavorado. Me deu um olhar assustado e disse: “Não sei, tia.” Eu acreditei nele.

Verônica quis entender como alguém tinha tanta facilidade de acesso a uma arma. E quis oferecer oportunidades a jovens de comunidades, para evitar dramas como aquele. 

Na verdade, desde criança ela já tinha o costume de ser voluntária, herança dos pais espíritas. 

– Cresci ouvindo que tinha que fazer algo pelos outros – conta ela, que faz parte do Fórum de Mulheres Negras do município de São Paulo. 

Com 15 anos, ajudava outros alunos na escola. Mais tarde, começou a frequentar um orfanato e recrutou um grupo de amigos para ir junto. Aos domingos, eles preparavam o almoço e promoviam atividades, como brincadeiras. E, nos feriados, levavam as crianças para passar o dia em suas casas. 

Verônica engravidou e se afastou do orfanato, mas, antes mesmo da morte do Tiago, os amigos já vinham pensando em se engajar de novo numa causa social. 

– Uns 15 dias após enterrar meu irmão, decidimos partir para a ação – lembra ela. 

Um dos amigos era Flávio Barboza, que se tornou cofundador da ONG, junto com Verônica. No começo, eles distribuíam cestas básicas em comunidades de baixa renda. Foi assim até 2002, quando perceberam que as doações tinham um impacto imediato, mas não eram suficientes para mudar a situação. Desde então, a organização diversificou sua atuação para muito além de seu objetivo inicial. Flávio define o papel da Mensageiros:

– Desenvolver jovens entre 16 e 25 anos e mulheres, principalmente os que estão em situação de vulnerabilidade social e que moram na nossa região e no entorno, de tal forma que possam ser protagonistas de suas vidas, responsabilizando-se por suas escolhas, sem esperar somente o amparo do poder público. 

Isso é feito por meio de quatro polos.

O de Educação e Cidadania tem como maior parceiro o Instituto Coca-Cola. Ele foca na capacitação profissional de jovens, que chegam mais bem preparados ao mercado de trabalho. São implementadas ainda ações afirmativas de igualdade de raça e gênero para ampliar a visão de mundo dos alunos.

Outro polo é o de Gastronomia & Empreendedorismo, que inclui o bufê escola Doce Mensageiro. 

– Os alunos aprendem desde chocolateria, marketing digital, precificação e educação financeira até gestão de negócios, de tempo e de produção – detalha ela, que está escrevendo um capítulo sobre resiliência e superação num livro que será lançado ano que vem por mulheres negras empreendedoras. 

Um terceiro núcleo é o de Artesanato Sustentável e Economia Criativa. Além de capacitar os alunos, Verônica também busca possibilidades de vendas para os artesãos. Este mês acontece o terceiro bazar virtual, em que eles apresentam e vendem suas peças. 

Por fim, há o Espaço Zen Saúde e Bem Estar, com atendimento psicológico e terapias integrativas, como floral, radiestesia, reike, auriculoterapia e constelação familiar, a preços acessíveis.

Em todos eles – como aliás em tudo que Verônica faz – há algumas palavras-chave: educação, empreendedorismo, tecnologia, sustentabilidade e saúde emocional. 

No polo de gastronomia, por exemplo, ex-alunos trabalham no bufê, que presta serviços para empresas ou residências. A cozinha funciona na sede e é coordenada por Verônica. Há ainda outra cozinha, que funciona num CEU (Centro Educacional Unificado), no meio do distrito, e que está sendo usada para o projeto Cozinhando pela Vida. Ela é gerenciada por sua filha, a psicóloga Lorraine Machado, de 23 anos, que é também diretora administrativa financeira da organização e coordenadora do Espaço Zen. Verônica tem ainda o filho Heron, de 13 anos. 

É mesmo comum que ex-alunos mantenham laços com a ONG, como acontece com Najara Szabo, de 29 anos. Formada em Publicidade e Propaganda, ela procurou emprego por um ano e meio, sem sucesso. Até descobrir os cursos da instituição. Começou com o do Coletivo Jovem Coca-Cola. Em seguida, fez o de gastronomia. Não parou mais.

– Eu não saía de lá. A ONG me deu uma direção num momento em que eu estava completamente perdida. Ela dá muita importância ao autoconhecimento e às soft skills (as habilidades sociocomportamentais, como comunicação interpessoal, proatividade, resolução de conflitos, capacidade analítica e de trabalhar sob pressão). 

Najara passou três anos na organização, entre fevereiro de 2017 e janeiro de 2020. 

– Mas sempre que precisam de mim eu participo. Afinal, quem mora na periferia acaba não acreditando nela mesma. E a Mensageiros da Esperança acreditou em mim. E foi lá que descobri que trabalhar com uma causa me preenche – diz ela, que participa hoje da Rede Mulher Empreendedora. – Graças a Verônica, estou dedicada ao empreendedorismo feminino. 

Os voluntários são tão importantes que Verônica prefere chamá-los de “embaixadores do bem”.  Muitos deles vieram por meio do Atados, que ela classifica como uma “rede potente e gigante”. 

Outra ex-aluna que passou a colaborar é Cristina Olivetto, de 49 anos. Ela foi fazer um curso de chocolateria, mas, ao chegar, percebeu que já dominava a técnica. Fez menção de sair, mas resolveu continuar e até hoje está sempre por lá. 

– Estou à disposição da ONG. Ajudo desde a distribuir alimentos e kits de higiene até a cozinhar – diz ela, que é cozinheira e confeiteira.  – A Mensageiros tem um trabalho maravilhoso de acolhimento, de afeto e de empatia.

Um trabalho que, conforme Verônica sonhava lá atrás, tem oferecido oportunidades e evitado tragédias. Ela resume: 

– Flávio, meu fiel escudeiro, sempre diz: “Vamos em frente”. E há 22 anos é o que estamos fazendo, indo em frente.

Atados convida:
Mauro Ventura
Jornalista e escritor