Texto por Larissa Takahashi e fotos por Camila Oliveira, voluntárias do projeto Comunicadores São Paulo (2019).


Conheça o Abraça, projeto que atende crianças e adolescente da comunidade do Areião em São Bernardo do Campo.

O projeto Abraça leva todos os domingos oficinas de redação, culinária, artes, artes marciais, autoconhecimento, horta, yoga, entre outras para cerca de 40 jovens moradores da comunidade do Areião em São Bernardo do Campo. As atividades são voltadas para crianças e adolescentes a partir dos 3 anos de idade.

“Nossa Casa e nosso projeto estão abertos a toda população da comunidade e redondeza. Nós observamos que o número de interessados cresce a cada dia e a frequência está cada vez mais persistente e constante”, explica o engenheiro Yunes Fares, um dos responsáveis pelo projeto.

Yunes conta que o projeto com o nome de Abraça tem aproximadamente 1 ano. “Entretanto, o trabalho com crianças e adolescentes com o intuito de estimula-las a superar seus limites e as limitações criadas pelo meio em que vivem tem histórico desde a década de 80, com a fundação de Nossa Casa, local onde o projeto funciona”, completa. Ele fala que a iniciativa foi renovada há pouco mais de 6 anos, quando o atual modelo de funcionamento do projeto começou a ser moldado, através da ação do próprio Yunes, junto com a médica psiquiatra Tais Moriyama, o arquiteto Aníbal Moriyama e o designer Igor Szudzik.

Aníbal recorda que o início do projeto aconteceu a partir da inquietação dele e de sua irmã Tais. “Entendemos que essa inquietação era uma vontade que o mundo fosse melhor. Minha irmã é psiquiatra, trabalha com crianças e adolescentes, chegamos a conclusão que o trabalho com crianças seria mais eficiente.  A ideia básica era criar um ambiente de estímulo, onde os jovens experimentariam coisas além do horizonte, de certa forma precária, que eles estão inseridos. Um espaço onde as crianças criassem um vínculo afetivo desenvolvessem autoestima e se arriscasses em experimentações inéditas”, afirma.

Para chamar a atenção das crianças, Aníbal conta que a dupla decidiu montar uma oficina de culinária. “Por uns 4 anos o projeto se limitou a oficina de culinária. Eu conheci o Yunes há uns 2 anos e, quando ele entrou começamos a diversificar as oficinas e nos organizar de forma mais formal. O projeto desde então cresceu muito, no início nós tínhamos uma oficina e 15 crianças frequentando”, lembra. 

Eles explicam que o projeto acredita em um futuro mais equânime e que trabalham para romper paradigmas, estereótipos e preconceitos. As oficinas, todas gratuitas, têm o objetivo de expandir o horizonte cultural das crianças e proporcionar experiências desafiadoras, diversificadas e estimulantes.

Para que as atividades aconteçam todos os domingos, o Abraça conta com um time de voluntários que se divide nas aulas das oficinas. “Existem duas categorias de voluntários. Temos os voluntários que são membros da diretoria, que se comprometem a estarem todos os domingos no projeto, somos em 8 voluntários, sendo que 2 são membros da comunidade.  Existem ainda os voluntários que assumem um compromisso mais pontual, sem frequência constante. No total, devemos contar hoje com a colaboração de 14 a 20 pessoas”, explica Yunes. 

Voluntários

“Poder dividir o que sei e aprender o que não sei é uma troca muito valiosa para mim. As crianças me ensinam muito e me transformam em uma pessoa melhor a cada semana”, declara Yunes.

Para Aníbal, o Abraça se tornou seu projeto de vida. “É onde eu encontrei um propósito e, encontrado meu propósito, eu encontrei minha paz. Eu sei o que eu quero fazer, eu sei que eu consigo”, declarou. “Junto com o projeto cresceram algumas crianças, que hoje já são quase adultos, e tivemos o prazer de vê-los se desenvolver. Valeu o investimento e nos motiva continuar sonhando”, completa ele.

Para Aníbal, projetos como o Abraça ajudam no desenvolvimento individual desses jovens. “Eu penso que o desenvolvimento individual se estrutura a partir dos repertórios de experiências que nos constitui. As crianças e jovens das comunidades carentes vivem uma condição de mínimo estímulo. Eles não têm acesso a alimentos diversificados, têm uma alimentação baseada em carboidratos industrializados, não têm acesso a lugares diversificados, a maioria das crianças não costuma sair da região em que moram, não têm acesso a culturas diferentes. O que o projeto proporciona são experiências, um aumento desse repertório. Acredito que esse seja o principal objetivo desses projetos. Acredito que seja o ponto de partida para o desenvolvimento de crítica”, afirma Aníbal.  

Yunes completa. “A educação do país está abandonada e não está nos planos do governo melhorá-la, e ficar sentado no sofá reclamando para a televisão não vai mudar nada. Projetos como esse possibilitam que a população se ajude sem ficar dependendo do estado. Se quem tem privilégios divide um pouco com quem não tem, todos podem caminhar juntos”. 

Durante a visita do Atados ao projeto, conversamos também com as voluntárias Daniela Moreno Camargo Schillig, de 23 anos e Jéssica Maria Nascimento Ávila, de 28 anos. 

“Eu conheci o Abraça através do Aquece São Paulo, que eu vi no Instagram, o Aquece é outro projeto que distribui comida e roupas, além conversar com os moradores de rua em São Paulo. A partir do Aquece SP, o Yunes comentou sobre o Abraça, contou qual é o objetivo, eu me interessei e vim conhecer. Na primeira vez, vim e só acompanhei a oficina de artes, depois eu comecei a fazer coisas minhas. Eu dou a oficina de ciências”, contou Daniela, que é farmacêutica bioquímica.

“Eu quero levar incentivo para essas crianças, eles vão para a escola sem nenhuma perspectiva, não têm nenhuma meta, se eu perguntar para eles o que eles querem ser quando crescer, eles não sabem, não têm nenhum objetivo. Quero que eles vejam uma coisa que eles gostem e queiram ir por esse caminho um dia”, reflete a voluntária. 

Ela explica que percebe uma educação muito defasada das crianças, inclusive na alfabetização. “Aqui a gente percebe como eles estão defasados em todas as áreas, inclusive a mais básica, que é a alfabetização. Tem criança de 14 anos que não sabe ler. Os mais velhos, na verdade, são os que menos sabem ler, porque desistiram mesmo. Os de 9 anos são os que mais sabem ler, mas ainda é pouco, em comparação as crianças que temos contato nas áreas de classe média. Trazer essas coisas, é tentar dar o mínimo que eles deveriam ter e eles não têm”, declara.

Jéssica, que é assistente de produção em uma produtora de filmes, conheceu o Abraça através de uma amiga e agora é a responsável pela oficina de leitura. “Minha irmã dá a oficina de escrita, onde ela ajuda as crianças melhorar a escrita, na oficina de leitura eu os ajudo a ler melhor, muitos são travados e não conseguem ler direito, isso acontece porque eles não têm prática de leitura, então eu tento ajuda-los nessa prática. Em algumas aulas, eu faço roda de leitura e cada um lê um pouquinho, eu faço a leitura de uma história para eles aprenderem, tento incentivar para que a leitura vire um hábito”, explica. 

Jéssica também destaca a educação defasada das crianças que frequentam o projeto. “Observo como a qualidade do estudo deles não é nada boa. Você vê crianças de 10 anos que não sabem ler, não escrevem direito, entre outras coisas. Com a evolução delas no decorrer do projeto eu percebo que muitas vezes é falta de uma orientação e educação adequadas, falta de estímulo. A gente planta uma sementinha nessas crianças, não é que vamos mudar totalmente, mas só de plantar alguma coisa e ver que eles vão absorver e tentar mudar isso, já é muito importante”, afirma. 

Cultura 

Aníbal conta que quase todos os meses, o projeto organiza eventos culturais com as crianças. “Levamos eles ao cinema, teatro, a praia, ao parque ou simplesmente a um restaurante para que eles experimentem e saírem do universo da comunidade”, explica. 

O Atados acompanhou as crianças ao teatro Procópio Ferreira, onde assistiram a peça Malala – A menina que queria ir para a escola. “Eu acho importantíssimo receber essas crianças no teatro, a gente sempre recebe. Essa é uma das funções do teatro também, ainda mais um espetáculo como Malala, que fala muito para esse público. Então a gente tem não só interesse, mas é um dos nossos objetivos com o projeto, a gente atende sempre, sempre temos uma cota para atender essas pessoas que precisam ter esse acesso, pra gente é uma alegria imensa”, afirma Alessandra Reis, produtora da peça. 

Para Alessandra o teatro faz toda a diferença na formação de crianças e adolescentes. “O teatro mostra a vida além da vida, ele representa um monte de coisa que a gente precisa mostrar para essas crianças, um leque grande. Eu acredito que o teatro é um agente transformador importantíssimo. Tanto crianças fazendo teatro na escola, a gente tem essa experiência de como crianças conseguem se socializar, a relação entre elas melhora e, elas com elas mesmas, o teatro é uma ferramenta milenar importantíssima”, defende.

Ela explica também que a equipe observa bastante as instituições que terão acesso aos ingressos. “Às vezes tem instituições que não são exatamente instituições com esse fim e que acabam tendo acesso a esses ingressos, então a gente tem muita atenção com isso e a gente cuida muito para que esses ingressos sejam destinados para quem de fato precisa desses ingressos”.

Para ela ainda há muito a ser feito para que o acesso à cultura deixe de ser privilégio de poucos, mas garante que está fazendo o que pode para aumentar essas chances. “Falta muito, mas estamos fazendo o que a gente consegue, só dá pra fazer o que a gente pode fazer, o que está ao alcance, acho que não podemos parar de fazer o que está no nosso alcance”, finaliza.


Para conhecer mais sobre o Abraça ou fazer um trabalho voluntário na organização, clique aqui.