Chamas queimavam não só um prédio, mas a história e o acesso à cultura. Segundo estudo divulgado pelo Observatório de Museus e Centros de Ciência e Tecnologia, cerca de 46% dos visitantes do Museu Nacional, perdido no incêndio no último domingo (dia 2), possuíam renda de 1 a 3 salários mínimos. A localização de fácil acesso, no bairro São Cristóvão, e o valor singelo – que claramente não fazia jus às riquezas materiais e imateriais – permitiam que esse fosse o destino de inúmeras famílias cariocas, ou melhor, de todo Brasil.

Foto: BBC Brasil.

A diversidade do público

Andrea Costa, professora da Escola de Museologia e uma das autoras dessa pesquisa divulgada, afirma que o público frequentador de museus no Brasil é composto, majoritariamente, por pessoas de classe alta e média, entretanto, no Museu Nacional a configuração era outra. Devido a sua localização na zona norte do Rio, facilidade dos meios de transporte e entrada gratuita, em alguns dias, o lugar era ambiente de lazer para muitas famílias, tornando-o parte da memória dos cariocas.

Diversas construções como o Planetário e o AquaRio, embora extraordinários destinos no Rio, possuem baixa acessibilidade do público de baixa renda, devido ao alto custo – os ingressos variam de R$16,00 a R$80,00 – e a localização elitizada. O valor simbólico das ruínas representa um peso a sociedade pelas perdas históricas, mas principalmente à população periférica do Rio que, mais uma vez, é privada ao direito à educação e pesquisa, pelo descaso ao patrimônio público, reforçando a desigualdade de oportunidades.

Foto: Jornal O Globo.

As perdas

Todos os itens do prédio principal foram perdidos. O descuido com relação ao coletivo e preservação do patrimônio público fizeram ruir o acervo do 1º Reinado e as peças da família imperial. Apesar disso, muitos objetos conseguiram serem salvos como o Meteorito Bendegó, a coleção de zoologia, o herbário e a biblioteca central. Lamentavelmente, peças únicas, como fósseis e múmias, agora, estão presentes apenas como uma lembrança daqueles – sortudos –  que as visitaram.

A tragédia do Museu da Quinta da Boa Vista gerou uma perda incalculável, tendo em vista que o próprio prédio possuía rica relevância histórica com a declaração de Independência do Brasil. Seus 200 anos abrigavam mais de 20 milhões de itens diversos entre as coleções de paleontologia, botânica, arqueologia, zoologia, etnologia e, principalmente, de história brasileira, que foi completamente perdida.

O acidente era inevitável. Após 3 dias do incidente, o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro alegou que o edifício apresentava claros sinais de irregularidade, devido a ausência de seguro, portas corta-fogo, além dos sinais de má-conservação, frutos dos cortes de verbas atuais. Entretanto, a precariedade da instalação já estava sendo investigada há 2 anos pelo Ministério Público Federal, apontando que o que parecia ter sido uma infeliz causalidade, era apenas desinteresse.

Foto: Jornal O Sul.

As manifestações e a identidade cultural

O Museu, mantido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), não era somente um acervo de itens históricos, mas também era um espaço para o desenvolvimento científico. Múltiplas pesquisas eram realizadas, incluindo o estudo da pré-história da Antártica – que, agora, chega ao fim. Assim, a inclusão do público, em geral, era sua maior riqueza, porque unia desde pesquisadores, professores da UFRJ, alunos, até curiosos – entre eles, 55% dos visitantes se declaram como pardos ou negros. A diversidade, tanto das peças quanto do público, explica a comoção da população diante esse infortúnio.

O Dia da Independência (dia 7) foi marcado por manifestações populares, que representavam a indignação pela perda de artigos que faziam parte da identidade cultural brasileira. A lástima dos historiadores também foi o estopim para a exaltação da sociedade, insatisfeita com a atual crise na educação e cultura. Gritos nas ruas e lágrimas na missa da Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé chamam atenção mundial à maior desgraça do incêndio: a perda da diversidade cultural.

Além das ruas, o incêndio também se alastrou pela internet. Nas redes sociais, do início do fogo até a manhã seguinte, ocorreram quase um milhão de retuítes. A maioria das publicações se destinava à críticas ao descaso das políticas públicas com relação aos patrimônios culturais, abrindo discussões políticas – claramente, ampliadas pelo período eleitoral vivido no Brasil. Esquerda ou direita, as curtidas e compartilhamentos se relacionavam à prioridade dos recursos públicos e o papel da responsabilidade coletiva e mobilização para a preservação da educação, ciência e cultura.

Infelizmente, o Museu Nacional se une ao Museu da Língua Portuguesa, a Cinemateca Brasileira e o acervo Hélio Oiticica, pelas chamas que se alastraram e destruíram séculos de história, representando simbolicamente o caos da situação social, econômica e política do país. Tal evento deixa o questionamento: mais quantos séculos serão queimados para entendermos que o conhecimento, irrestrito às condições sociais, é primordial para a transformação da sociedade?

Foto: Jornal O Dia

Como se engajar 

Embora o que tenha acontecido com esse patrimônio seja uma infeliz perda, existem muitas formas de contribuir com a causa. Saiba como: 

  • Se você possui peças ou cópias digitais que queira doar, envie um e-mail para falecomdiretor@mn.ufrj.br, com o assunto: DOAÇÃO
  • Para se tornar um voluntário e participar ativamente da reconstrução, envie uma resposta para falecomdiretor@mn.ufrj.br, com o assunto: VOLUNTARIADO
  • Fotos do acervo podem ser enviadas para o link: museunacional.ufrj.br/memoria

O principal é fazer com que o museu permaneça em nossas memórias, sendo através de manifestações populares, mídias sociais ou o voluntariado <3