Texto por Carina Gonçalves e fotos por Catarina Ribeiro, voluntárias do projeto Comunicadores São Paulo (2019).


Nicholas Wahba comemora o aniversário de nascimento três vezes ao ano, no dia que nasceu, no dia do acidente que o tornou afásico e no dia do palhaço. Ele assume a função de fundador, co-diretor e coordenador do grupo da ONG Ser em Cena, a qual ensina afásicos a reconquistarem a comunicação física, falada e escrita que perderam devido a um acidente que afetou o cérebro, ou um AVC.

Seu segundo nascimento ocorreu dia 28 de novembro de 1988, quando um colega do time de basquete na Hebraica ofereceu uma carona depois do treino. Entretanto, no meio do caminho ele decidiu tirar racha, disputando corrida com outro carro. Depois entrou na contramão, foi rápido, o ônibus entrou em cheio nele e o mesmo apagou. Nesse momento a sua vida mudou.

Após o acidente, um dos treinadores o levou para o Hospital das Clínicas e avisou os pais, os quais, quando chegaram preocupados, perceberam que o filho estava muito mal e o encaminharam ao Hospital Albert Einstein. Nele operou o cérebro, o braço, o rosto e o pescoço, mas só conseguiu recuperar a palavra quando fez uma cirurgia em Boston, EUA. “Fiquei alguns anos sem conseguir conversar, apesar de entender tudo”, afirmou Wahba.

Depois do hospital, o caminho do afásico é a reabilitação no fonoaudiólogo, fisioterapia e fazendo exercícios como natação e musculação. Apesar do caminho ser longo com desânimos e vitórias, as poucas palavras deram voz ao marinheiro bêbado, personagem de uma peça teatral dirigida por Hélio Braga. 

Esse mesmo diretor depois lhe concedeu um desafio, o personagem Cleonte com muito texto, da peça “Burguês Fidalgo”, de Moliére. Ele agradeceu, querendo desistir, mas Braga tranquilo disse: “Você não só vai conseguir decorar como vai ficar surpreso” e com a ajuda da mãe, Liliana, realizou o papel e passou de uma voz bêbada para o começo da reconquista da palavra. 

Ao passar dos anos, durante a viagem para o Canadá, a sua fonoaudióloga Fernanda Papaterra presenciou uma peça representada por afásicos e logo ao voltar ao Brasil contou a Wahba. Essa foi a semente plantada para depois crescer uma grande ideia, o instituto Ser em Cena, em 2002. Desde a sua criação, segundo o portal da ONG, foram atendidos mais de 600 portadores de afasia e de outros distúrbios de comunicação e favorecendo no processo mais de 1000 pessoas.

Esse processo de reconquista da palavra de cada pessoa ocorre pelo desejo de obter novamente a própria independência de antes do dia de início da afasia em si mesmo. Muitas destas pessoas conseguem se recuperar e ter a sua vida como era antes, inclusive a trabalhar, mas “na afasia uma pessoa é diferente da outra e nunca é igual a todas as pessoas. Essa é a problemática para a recuperação”, conta ele.

Nesse processo histórico de cada pessoa, o projeto possui várias atividades para propiciar a melhora. Estas são a Psicomotricidade, a Estimulação Cognitiva e o Atendimento Fonoaudiológico (sempre antes das aulas de teatro), o Teatro, a Danceability e a Musicalização. Ambas as últimas práticas envolvem os estudos de Nicholas, ao qual através de uma dança diferente em que a pessoa consegue se movimentar sentindo apenas o que consegue fazer, como piscar os olhos, e a música realiza grandes resultados. Como uma pessoa sem a fala atinge o canto?

“Uma afásica aqui não conseguia falar nada e eu falei ‘tenta cantar comigo: não posso ficar nem mais um minuto com você, sinto muito amor, mas não pode ser. A mulher começou a cantar e a chorar”, conta Nicholas. Apesar de não conseguir pronunciar um diálogo, estava na mente a música ‘Trem Das Onze’, de Adoniran Barbosa, na ponta da língua apenas esperando para ser cantada. Isso ocorre, explica ele, utilizando Oliver Sacks, porque a música vem de outra parte do cérebro – não o esquerdo – que você consegue cantar.

Esses alunos do coral realizaram uma bela apresentação no Shopping Top Center, na Av. Paulista, no dia 30 de junho, comemorando o dia municipal do afásico conquistado ainda apenas em São Paulo. As pessoas ao verem e escutarem não acreditavam como pessoas com dificuldade de comunicação granjeavam aquele feito. 

Além do coral, também haverá uma apresentação nos dias 27 e 28 de novembro no teatro Sergio Cardoso, com mais de 60 pessoas entre afásicos e membros do projeto na produção. Essa será uma reapresentação de uma peça já feita antes pela companhia, ‘Silêncios, Moléculas, Dinossauros’.

Os vários sons de silêncio são intermináveis e à espera da conquista de pequenos movimentos. A geração de som e os pequenos passos, apesar de dinossauro, são uma conquista para quem algum dia teve o domínio da fala e do corpo. Eles apenas querem poder falar, dançar e escrever as próprias histórias sem precisar de ajuda. 

A vontade de cada um quando se torna afásico é gritar e fazer todos ouvirem, mas saem grunhidos. Seu silêncio interminável externo e as vozes que não querem calar internamente incomodam por ainda terem um longo caminho para alcançarem conquistando os movimentos até conseguirem desabafar.

Entre os membros da peça percebe-se a presença de muitos jovens, que tiveram um AVC antes dos 40 anos, eram economicamente ativos e durante a conversa perceberam que não havia preocupação de se fazer acontecer com eles. Esse cenário, se tornou comum atualmente. Segundo dados apurados em 2018, pela Rede de Reabilitação Lucy Montoro, 69% das vítimas de AVC atendidas têm menos de 60 anos, um crescimento comparado ao ano anterior de 54%. Os motivos normalmente são estresse e colesterol alto. 

Marcos Mariano, de 34 anos, trabalhava na área da sua formação em administração, com uma vida corrida comendo besteiras. De repente chegou a ficar com 980 mg/dl de colesterol, o normal é 150, quando teve o AVC, há quatro anos atrás. Ele passou de ativo ao estado de não conseguir falar nada e andar em cadeira de rodas, se recuperando com fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional e psicologia. 

Há 2 anos, quando entrou no projeto por indicação do Guilherme, fonoaudiólogo, se emocionou ao pisar no palco pela primeira vez e conseguiu voltar a falar e a andar. Porém, ao pedir o seu contato solicitou ao repórter escrever pois tinha ainda dificuldade nas mãos.

Rita Cristina, de 51 anos, estava há cinco anos no projeto e com dez anos do AVC, devido a vida agitada de professora em três lugares diferentes. Ela sofria de estresse e colesterol alto, mas apesar do ocorrido mantém o seu gosto de ajudar o próximo, passando de uma educadora construtivista abrindo a criatividade das crianças para uma escritora. Reconquistando a palavra através do ato de contar a própria história de afasia e perpetuando o dom de compartilhar informação.

Ao perguntarmos sobre o que achava do projeto, Danielah Paulino, de 35 anos, se emocionou de alegria e satisfação deixando as pupilas inchadas quase escorrendo lágrimas. Há seis anos e meio atrás, estava grávida de um mês quando teve o AVC. “Eu fiquei achando no dia e na hora que eu estava tendo alguma coisa da gravidez e não um AVC”, conta ela.

Reconquistar a palavra, a expressão e a escrita é um processo lento e contínuo da transposição de um grito de independência interno para o mundo. Às vezes não se nota o quanto conseguir se comunicar é importante até perde-lo.

“Um cara que tem uma vida normal, sofre um acidente de carro ou igual – um acidente vascular cerebral, e tem que aprender de novo a andar e, e tem que aprender de novo a falar quando sai do hospital, vai fazer um teatro de clown (são modos de trabalho do palhaço, uma das especialidades de Wahba)”. Este trecho refere-se a música “Ser em Cena”, uma homenagem ao seu amigo palhaço composto e cantada por Manu Lafer, que também escreve algumas músicas para a instituição. Ela é uma história que representa a de muitos afásicos, que reaprenderam a se comunicar novamente apesar da dificuldade.


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