Ela transformou o que ama em voluntariado. O voluntariado transformou o que ela faz. E tudo isso não foi um conto de fadas (e nem precisa ser).


Já reparei uma coisa: não gosto de retratar o voluntariado, ou o setor social, como um mundo encantado onde unicórnios voam em arco-íris. Acho que a história da Ana tem muito disso: é real, verdadeira, parecida com a minha ou a sua. Apesar de que ela frequenta, com certa regularidade, lugares com unicórnios e arco-íris.

O primeiro papo com Ana Luiza foi no apartamento dela, na Liberdade. Ela tem 24 anos e está há uns 4 em São Paulo. Veio de Governador Valadares, o que dá para perceber no sotaque e na hospitalidade mineira. Logo no começo da entrevista chegaram outros dois amigos. Ao invés de deixá-los esperando, juntou os dois, eu, o Fujii e o marido ali na sala, transformando a conversa numa roda íntima.

Ana se formou em Estudos Literários e no final da faculdade teve as primeiras ideias de fazer voluntariado, mas esbarrou em um dilema clássico: como ser voluntária sem ainda nem conseguir bancar as próprias contas?

Porém, é aí que entra o fator vida. Aquele que traz o conflito e muda o caminho do protagonista. Ana descobriu a Associação Viva e Deixe Viver, que treina e organiza grupos de contadores de histórias em hospitais. A literatura já fazia parte do estudo-trabalho-paixão dela, mas descobriu ali algo novo: os contos infantis. Após um treinamento no Hospital das Clínicas e 6 meses acompanhando uma contadora já veterana, começou a contar histórias no A.C Camargo. Os ouvintes? Crianças em tratamento de câncer.

Penso no contraste dos contos fantásticos em um lugar cheio de dramas reais. Ver uma criança serelepe em uma semana. Isolada em uma internação na outra. E a notícia que ninguém queria na próxima. Ana diz que chega momentos que você pensa seriamente em desistir. A confissão soou muito humana. Há coisas que não sabemos se estamos prontos para encarar.

Apesar disso, ela nunca abriu mão de contar histórias no Viva. Faz isso desde 2012. Nesse ínterim, viveu momentos felizes, é claro. Ana sempre gostou de ter o livro Hora do Piquenique à mão, que conta a história de animais que se reúnem para fazer um banquete. Ela lembra duas vezes em que ele foi certeiro no apetite de crianças que não queriam comer. Contou outra história também que eu achei ótima.

 

Foto da Ana Luiza por Bruno Fujii

O começo é tênue: era sobre uma menina do hospital que amputou uma perna. A fisioterapeuta precisava realizar alguns exames nela, aos quais ela relutava. Foi quando Ana chegou no quarto, um pouco incomodada de atrapalhar o processo. Mas foi justo a fisioterapeuta que pediu reforços, para contar a história como um meio de distrair a garota. E lá foi ela contar Chapeuzinho Amarelo. Só que com algumas modificações, como fazer a menina espantar o lobo mau tossindo. Segura essa, Chico Buarque: esse método sofisticado de auscultação na tua fábula.

Já a história da Ana com o Atados começou quando ela assistiu um vídeo sobre o casamento de dois velhinhos em um asilo. Gostou muito da ideia, o que gerou aquela fagulha de interesse. Acabou conhecendo o trabalho do Atados e, ao longo do tempo, se envolveu em dois atos.

Pelo o que lembra, o primeiro foi com o TETO. Na época, ela já sabia que uma das atividades do TETO é construir casas emergenciais, mas tinha receio do trabalho ser muito pesado. Foi quando descobriu um ato em que se sentiu capaz de participar: entrevistar moradores do Velozinho para o processo de pesquisa que a ONG faz com as comunidades. Perguntei se ela já havia entrado em uma favela antes e, ao que ela lembra, aquela foi a primeira vez.

O segundo ato que participou via Atados foi na Morungaba, que é uma associação ligada a abrigos (ela me contou que “abrigo” é o nome que substituiu “orfanato”). O tipo de ato que ela participou já foi citado em outro texto do Apanhadores, que é o Carta & Livro. Nele, um voluntário se corresponde com uma criança do abrigo por 3 meses. Somente por cartas, não podem nem trocar fotos (faz parte da brincadeira se reconhecer no momento de encontro). Ao final desse período acontece a festa da troca, onde ambos se conhecem e trocam presentes. O voluntário deve presentear a criança com um livro. E a criança, com um presente que ela mesmo confeccionou.

Achei muito curioso esse processo. Perguntei como foi conhecer alguém via cartas, ainda mais quando esse alguém é uma criança. Mas Ana revelou uma experiência antiga nisso: quando menor, ainda em Minas, trocava muitas cartas. Disse que a carta custava só um centavo se fosse escrita em uma única folha e não tivesse pesos adicionais. Começou se correspondendo com a prima, depois com os amigos da prima, e assim foi. Quase um Facebook escrito à mão.

Voltando ao Carta & Livro: Ana escrevia cartas para uma pequena de um dos abrigos associados à Morumgaba. As cartas eram lidas com a ajuda de um voluntário no abrigo, que auxiliava a criança também na resposta. Ela confessa que sentiu certa dificuldade em desenvolver a conversa, não por problemas no processo, mas pela timidez da própria menina. Já na festa da troca, se reconheceram com facilidade. No encontro, Ana conheceu até a mãe da garota, o que foi uma revelação curiosa. A menina mora em um abrigo, sendo que tem mãe. Algo que contraria nossa lógica. Isso, acredito, é um efeito bem comum do voluntariado: mostrar que existem pessoas vivendo em uma lógica completamente diferente da nossa.

Foi interessante saber que os dois atos em que ela se envolveu geraram outros trabalhos espontâneos nas ONGs. No TETO, ela se inscreveu por conta própria para pintar casas, e justamente na comunidade do Velozinho, onde entrevistou moradores (reencontrando vários durante a pintura). Na Morumgaba, ela se dispôs na festa da troca a fazer algo que já dominava: contar histórias. E a própria organização a convidou para fazer isso em outros abrigos associados.

Ana entende o voluntariado como uma via de mão dupla, e não somente como um gesto altruísta. Hoje, por exemplo, ela se intitula como contadora de histórias. E isso ela aprendeu na experiência dos hospitais. Trabalho voluntário. Ou profissional: na semana seguinte da nossa entrevista, ela daria um workshop sobre contação em Campinas.

No final das contas, entendi que não estava fazendo entrevista alguma. Estávamos todos ao redor de Ana, na sala da casa dela, ouvindo uma história cheia de momentos fantásticos. E nem um pingo de ficção.


Texto: Pedro Chammé
Fotos: Bruno Fujii